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outubro 06, 2006

Vacariça e Mealhada receberam foral há 490 anos

Diário de Coimbra

Vacariça está para a Mealhada como Guimarães está para Portugal. Ou seja, foi com a entrega do foral a este povoado com 20 casais, em 1516, que se expandiu o território da Mealhada até aos nossos dias. A data foi assinalada ontem com uma recriação histórica da entrega do foral manuelino à actual freguesia da Vacariça e ao actual concelho da Mealhada. Recriação fidelíssima, interpretada por algumas dezenas de actores da Viv’Arte, cooperativa teatral de Oliveira do Bairro e de outros grupos locais.

Ninguém ficou indiferente. O povo saiu à rua, acompanhou o cortejo histórico, e assistiu, interessado e divertido, à reconstituição do que terá acontecido naquele preciso lugar em 1516. E pelo que dizem os historiadores, foi mesmo ali, no largo onde hoje é a Junta de Freguesia de Vacariça, que o escrivão da alfândega da vila de Aveiro procedeu à cerimónia da entrega do foral, convocando para o efeito as personalidades relevantes da época.

Ontem, homens e mulheres, novos e velhos, crianças e adolescentes fizeram uma viagem ao passado, e ficaram com uma ideia como tudo aconteceu. De acordo com a História, D. Manuel, Rei de Portugal e dos Algarves, atribuiu o foral a Vacariça e Mealhada em 5 de Outubro de 1516, um domingo, e mandou o escrivão da alfândega da vila de Aveiro convocar a «gente do burgo, senhoriais, plebeus e arraia-miúda» e ainda as personalidades da região.

O referido escrivão, com todo o séquito atrás, em cortejo e com a pompa da época, dirigiu-se ao largo principal do povoado (Vacariça), onde o povo já estava à espera. Do alto do seu púlpito, aquela entidade (escrivão), ao som de trompetas, mandou um arauto ler o documento que dava autonomia às entidades do território, ao mesmo tempo que eram avisados que, a partir daquele momento, «deviam lealdade ao Rei de Portugal». Para autenticar a validade daquela atribuição (foral) a Vacariça e Mealhada, foram chamados o procurador do reino, o juiz Fernando Vaz e os vereadores Fernando e Pedro Anes, e ainda o escrivão do bispo de Coimbra e o mordomo do bispo de Aveiro. Como testemunhas do acto, foram chamados «dois moradores de Mogofores».

Tudo “nos conformes”, o escrivão de Aveiro informou que o documento ia ser assinado por Fernando Vaz, «juiz deste termo», pelos dois vereadores, Fernando e Pedro Anes, «de cruz por não saberem ler nem escrever», e pelo procurador do bispo, esse sim, «sabe escrever», que também lacrou o documento.

«Assim fica lavrado o foral. Viva o Rei D. Manuel», gritou o escrivão, logo seguido na saudação pelo povo, que parecia estar a viver o momento de há 490 anos.

Foral abolido em 1832

Depois de formalizado o acto, entremeado com “palhaçadas” dos arautos, o escrivão de Aveiro, para celebrar o acontecimento, virou-se para o povo e disse: «Agora, moças e moçoilas, vinde bailar». E assim foi, ao som de tambores, cornetas e gaitas de foles, as moças (e só moças), foram para a roda feita pelo povo e dançaram alegremente.

Seguiu-se uma luta de espada entre dois soldados e o escrivão tirou da cartola «uma prenda especial do bispo de Aveiro». E que prenda!

«A dançarina Petra vai dançar para vós!». Uma esbelta e esguia jovem, com vestes de seda, decote generoso, sandálias e barriga à mostra, ao som dos tambores e flautas, dançou de forma sensual, quase erótica… a dança do ventre!

De olhos arregalados, o povo (ou melhor, os homens), durante cerca de cinco minutos, não tirou os olhos da bela Petra que, como uma enguia, ia fazendo movimentos com o corpo, realçando as formas sensuais da sua silhueta.

A festa não terminaria sem a alegria do bobo da corte, «o saltarino do reino de Portugal», que chegou de cavalo virtual (ele próprio mimou o equídeo) e executou alguns malabarismos que fizeram sorrir os fidalgos e rir à gargalhada a arraia-miúda, os plebeus.

Com o final da recriação histórica deste acontecimento, chegou-se ao século XXI, à realidade dos nossos dias, e a oportunidade de se saber mais sobre o foral da Vacariça e Mealhada, que foi abolido em 1832 (ver caixa). A resenha da história deste foral foi feita pela professora Maria Alegria Marques, a responsável deste documento estar, a partir de ontem, no Arquivo Municipal da Mealhada, ontem inaugurado oficialmente.  

Publicado por Vivarte às outubro 6, 2006 06:44 PM